quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Calendário



Sempre fui muito livre. As prisões me incomodam. Quando me olho no espelho percebo uma partícula, construída por uma série de referências exteriores e múltiplas. Mas sou síntese. Síntese no que confere às diferenças.
Agora posso entender melhor o nome que me foi dado. Tão curtinho e ao mesmo tempo carregado de musicalidade. Meus pais não imaginaram que eu poderia inventar possibilidades impossíveis e desvendar mistérios através de um nome tão dinâmico. Ana é realmente um nome micro, mais representa como nenhum outro a classe das vogais. A letra a é aberta, respira e inspira vida, é dinâmica e performática.

Talvez por isso,os outros me vêem forte, transmito através da alternância dos sentidos. - meu oriente - o olhar.

Espero a visita de OTTO. Invade, ou melhor povoa meus sonhos, minha razão e minha loucura. É uma pessoa livre, companheiro que não se encontra em qualquer café.
OTTO é um sujeito do mundo, homem do não lugar. Vive a percorrer fronteiras, a confrontar seu espírito com os limites; para ele o desafio é tornar flexível essa transição. Otto diz se sentir anacrônico, somos companheiros atemporais. Caminhamos como mão e luva numa conexão talvez espiritual. Tento decifrar através dos signos gráficos e dos rabiscos de OTTO os mistérios daquele país latino. Pretensão?
Os ruídos a percorrer os cantos da casa ao reler suas cartas, fragmentos. Seu calor mobiliza a fronteira dos meus sentidos ou seu reverso. Tenho medo de que não volte. Mas OTTO está aqui. Dificuldade em perceber o outro como espaço diferente?

Os meus hábitos são estranhos ao contrário do que se pensa. Para os contemporâneos, manhã, tarde e noite. Para mim, os instantes. Ínfimos, voláteis, porém eternos. Nobres e imensuráveis. Moro em um bairro provinciano. A minha rua sempre cheia (de carros). Poucos transeuntes. Os vizinhos colados ao portão como se compelidos.
Belo Horizonte em tempos vindouros Curral Del Rey. Receptáculo do poder público, cidade planejada. Hoje arranha-céus, caixotes de lego a crescer. Prá onde? Prá quem? As pessoas aceleradas. Contra o tempo, para o tempo, para quem?
Moram comigo minhas memórias presentes. Fui uma criança pouco comum. Um robusto pé de manga por companheiro durante as horas de repouso, parecia um gigante que bailava ao som do vento. Eu tentava tocar sua fisiologia e o que me divertia era a densidade de suas sombras. Em princípio causavam paúra. Posteriormente, tornaram-se pequenos filmes, uma série de curtas animados que narravam a dramaticidade noturna ao adquirir poesia e sonoridade.
O meu primeiro amor, posso dizer que foi divertido. Tinha apenas treze anos, maças do rosto rubras, complexada e gorducha. O moço rude, porém sensato. Estático.... sem soletrar um verbo, se foi.
Minha profissão, imagens palavras; mas tenho um segredo: prefiro a ausência de todos os signos. Queria ser aeromoça ou guia turístico. Estaria mais perto de OTTO?
Se descobrissem a dor que comprime o peito, a válvula tricúspide num viés a explodir. Os lugares me parecem invisíveis como os de Calvino. As noites são eternas e cama imensa e fria.
Fiquei sempre vagando até conhecer OTTO. A sensação mora além do campo verbal, onde as latitudes e longitudes são imprecisas e incongruentes. Além de outras coincidências nosso nome pode ser lido de trás prá frente.
Sento-me para esperar. Meu sexto sentido cético percebe uma conexão maior. Recordo-me do seu cheiro, pés descalços, seus pêlos. O tempo cada vez mais extenso, intenso talvez. O espaço interior se amplia, é tão exterior a mim que caminho como se fosse um invólucro de balas mastigáveis, doces e efêmeras. O mundo numa caixa de aviamentos feito caixinhas chinesas, pronta para interagir e experienciar descobertas.
Quando o ônibus aponta um frio na barriga, dois, três...vários. Suspensão a ar...Desce gente a valer. Reconheci o moço pelos pés singelos, calçados 43. Tênis batido, surrado. A barba por fazer numa transição do castanho para o loiro. Verde musgo?
Ele não é como antes, traz consigo cartografias de além mar. Se diz velho prá chegadas e partidas, o seu corpo pede arrêgo. Seus gestos são altivos, nobres e clamam socialização. Em suas mãos mapas de crivo, sobreposições de histórias que não se anulam.
A capital lhe parece estrangeira, seu corpo pesa sobre o chão, carrega uma densidade de quem pede para compartilhar vivências que ainda tangenciam pelas divergências internas e pelas incongruências do moço. Ele se mantém em silêncio. Tento estabelecer conexões intertextuais e me aproximo com uma leveza que induz ao ímpeto de quem guarda saudade. Suas lembranças ainda recentes em mim se traduzem feito cócegas e ele me acolhe com o olhar.
As ruas da cidade como tabuleiro de xadrez a orientar os caminhos de quem se propõe a seguí-los. Caminhava-mos em direção ao horizonte, como duas retas paralelas lançadas ao infinito.
A luz da manhã surgi pela fresta em silêncio, numa nobreza sutil. Cintila os quatro quantos da casa. OTTO diz que me ama. Na tentativa de apreender o calor de outrora, que ainda percorria meu corpo como dormência que se espalha até dissipar.
Digo a OTTO que pule as janelas. Isso me faz recordar um dia daquele mês de agosto. Céu azul anil. Nuvens nem sinal, às vezes desenhávamos naqueles algodões gigantes. Eu arrumava sua bagagem e tentava romper o dorso das montanhas afim de minimizar a distância.
Me lembro dos tempos do passado presente. Oferecia ao moço músicas e chá, nos momentos em que se encontrava suspenso no embalo da rede. Aquele movimento remetia a uma ociosidade criativa e ele fazia questão de preservar os períodos ínfimos de liberdade ociosa.
Por um instante me parece eterno. Aqui mora OTTO. No arranjo dos signos de um mundo que de tão pequeno, despretensiosamente se faz grande - em mim.